EDIÇÃO - Ano VI

Montagem é cortar o que não é o filme

Quando o cinema nasceu no século XIX não havia ainda a ideia de montagem. A capacidade cinematográfica de construir uma nova realidade por meio de uma linguagem narrativa veio com o tempo a partir da imaginação, da ousadia e de experimentações de diferentes cineastas. Aprender algumas noções básicas sobre a arte de selecionar, organizar, ordenar e ajustar planos é um dos desafios enfrentados pelos autores do Revelando os Brasis VI, reunidos no Canal Futura, no Rio de Janeiro. Quem vem coordenando esta aventura cheia de aprendizado pelo mundo da edição de um filme é a diretora e montadora Márcia Medeiros.

A professora atuou em diversos documentários, séries de TV, curtas e institucionais, tais como: “O Infiltrado” – History Channel(2014); “Globo Ciência” – Rede Globo/Canal Futura (2013); “Que Marravilha” – GNT (2012); “Capoeira” – TV Brasil/Bossa Produções (2010); “Experiências do SUS que dá Certo” – Ministério da Saúde (2010); “O Bom Jeitinho Brasileiro” – Canal Futura (2006-2008); “Memória para Uso Diário” – Prêmio de público do  Festival do Rio (2008); “Fama” – Rede Globo (2003), entre outros.

Segundo a diretora, durante a montagem, o editor tem diante de si um tabuleiro para experimentar espaços e tempos. Algumas pistas ajudam a trilhar este novo universo: saber que o cinema faz o tempo andar rápido ou devagar e brinca com a percepção; entender que aquilo que se esconde é tão importante quanto o que se mostra; compreender que o filme pode ser contado através de diferentes camadas e, neste arcabouço, não se deve subestimar a camada sonora; saber que nem tudo se resolve no diálogo; compreender que as escolha têm sempre uma função dramática; que não há certo ou errado na hora de montar, o que existe é o jeito de cada um contar uma história, pois cada um pode a partir de um mesmo material bruto montar um filme completamente diferente; e entender que o exercício de montar começa no roteiro e segue até a finalização da obra.

Através destas e outras dicas, a diretora começou a  iluminar o caminho dos autores em relação à montagem. Na entrevista abaixo, Márcia Medeiros aborda a riqueza da experiência vivida por moradores de diferentes brasis. Criado em 2014, o projeto tem a realização do Instituto Marlin Azul e o patrocínio da Petrobras.

Os autores selecionados pelo Revelando os Brasis farão pela primeira vez um filme de curta-metragem.  O que eles precisam saber?

Márcia Medeiros – Os autores precisam sobretudo saber que a montagem começa no roteiro. Montar um filme é relacionar planos. Estes planos têm que ser pensados no roteiro, realizados na gravação e, a partir daí, na montagem propriamente dita, será concretizado este plano inicial de contar uma história através de pedaços. Isto é fundamental porque senão chegaremos na edição sem ter o material necessário para realização da obra.

Outro cuidado fundamental é lembrar que o filme é um audiovisual. Temos uma camada sonora que também ajuda a contar as histórias, independente dos textos ditos pelos personagens. É importante saber que a edição é o lugar onde a gente escolhe, relaciona planos e coloca estes planos num certo ritmo.

Também é fundamental saber que aquele plano foi pensado porque eu quero passar algum tipo de emoção e informação. Não é aleatório. Os diretores precisam dominar esta sintaxe, esta linguagem narrativa que é igual para todos os cineastas, e transformar esta linguagem na forma como se quer contar esta história. A montagem é só o momento final onde estes elementos se concretizam. O tempo todo o diretor precisar estar pensando em montagem.

O Revelando os Brasis possibilita a brasileiros de pequenas cidades contar suas histórias para outros brasileiros. O que significa esta oportunidade?

Márcia Medeiros – A mídia hegemônica não chega nestes lugares e quando chega não traz documentários e ficções feitos com o olhar de quem é dali. O Revelando os Brasis possibilita às pessoas trazerem a sua cultura, as histórias destas regiões. O projeto ganha um canal de veiculação destas imagens porque é fundamental registrar e veicular. Isso é contra-hegemônico, vai de encontro a este império da imagem que vivemos. Com o projeto, criamos canais alternativos, não somente para veicular mas para produzir imagem. Estes territórios se transformam com isso. Estes autores se revelam para o país e também revelam para eles mesmos um olhar de quem consegue olhar de longe aquela realidade que vive todo dia. É transformador o que estes filmes conseguem fazer nos próprios territórios, não somente na vida destas pessoas.

Fotos: Ratão Diniz/Instituto Marlin Azul

 
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