EDIÇÃO - Ano VI

Era uma vez um cinema muito lindo…

Era um vez um cinema muito lindo. Quem sabe o mais lindo do país. Tinha piso de calcetaria polida no tempo dos séculos. As paredes eram de casarios tão antigos quanto o chão. O teto, um céu de estrelas do sertão.
A acústica abrigava perfeitamente a trilha sonora de grilos e tambores que ali se apresentava. Havia um imperceptível chiado de rio, precisamente abastecido pelos céus com as chuvas dos dias anteriores. O vale concentrava o som na baixada.
Tudo nesse cinema recebia a plateia carinhosamente. As duzentas cadeiras em um instante se esgotaram e o tapete vermelho por onde se apresentaram os artistas aconchegou quem chegava depois e se encantava com a grande tela ali armada e aberta a todos. Tinha na plateia a juventude e anciãos, as mães e filhos, avôs e netos. Tinha visitantes de outros países, mas muitos mais nascidos e criados no mesmo chão que abrigava aquela sala livre e gratuita de cultura e arte.
Tamanho encantamento se multiplicava nos olhos de quem via. A história sendo contada pela história da professora de história. Era muita história. Era uma história linda, uma história negra, uma história triste, uma história atemporal, uma história igual a de muitos ali.
O cinema mais lindo durou só uma noite. Era um cinema itinerante que teria dali pra frente outros chãos, paredes e acústicas. E reproduziria outras histórias. O cinema mais lindo do mundo foi o que segurou meu coração no dia em que tocaram fogo na cultura do meu País.
Vim sentir mesmo a perda de tudo que haviam confiado ao Museu Nacional dias depois, quando um choro copioso invadiu minha madrugada. E agora, pra me levantar, admiro o registro dessa noite gloriosa! Volte logo, cinema mais lindo! Precisamos de mais de você!

Depoimento de Joana Horta, produtora local do filme “Chica”, após o lançamento da obra em Lençóis (BA), durante o Circuito Nacional de Exibição Revelando os Brasis VI.

Veja aqui mais fotos da sessão em Lençóis.

 
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