EDIÇÃO - Ano VI

Comunidade celebra a magia do cinema, em Itatiaia, São José do Jacuípe

– O que vai acontecer aqui?, pergunta um senhor.

– Vai ter cinema!, responde o fotógrafo.

– Mas o que é cinema?, retruca o senhor.

Diante do espanto da pergunta inesperada, o fotógrafo Ratão Diniz revela com entusiasmo ao senhor como o cinema pode ser entendido como uma composição mágica de imagens e sons para contar uma história. O diálogo acontece momentos antes do lançamento do documentário “O Rio que não Seca”, da diretora Geilane de Oliveira, no distrito de Itatiaia, em São José do Jacuípe, na Bahia. Desde o dia 22 de agosto, o Circuito Nacional de Exibição do Revelando os Brasis VI está percorrendo o país com sessões de cinema gratuitas e abertas. O projeto tem o patrocínio da Petrobras e a realização do Instituto Marlin Azul.

Foi assim que a noite de terça-feira (04/09) rompeu a rotina da comunidade com uma experiência inesquecível na Praça da Feira. Crianças, jovens e adultos se juntaram para conferir a novidade. Cerca de 1.200 espectadores lotaram o espaço. A programação começou com a apresentação dos artistas locais Maks Joabe, Kaio Cantor e Renata Santana. Em seguida, a plateia acompanhou a mostra de ficções e documentários feitos por moradores de pequenas cidades com até 20 mil habitantes.

Para muitos moradores, representava o primeiro contato com uma tela de cinema. O impacto daquela experiência audiovisual coletiva no meio da rua gerou interação e grande euforia na plateia que reagia aos filmes com comentários durante a projeção, estabelecendo um diálogo com os personagens e com seus dramas. Tudo isso temperado com pipoca distribuída pela diretora para o público. Quem participou e registrou a sessão para o seu canal no youtube foi o realizador Ricardo Sena, selecionado da quarta edição do Revelando os Brasis, com a história “O Boi Roubado”, de Serra Preta, no interior baiano.

O filme mais esperado da noite trouxe a história baseada nas memórias da realizadora durante sua vida como estudante na Escola Família Agrícola (EFA) de Jaboticaba, no município de Quixabeira, no interior baiano. Trata-se de um documento audiovisual feito de homenagem e gratidão pelos anos de estudos e vivências numa unidade de ensino marcada pela pedagogia da alternância, em que o aluno estuda por duas semanas em período integral na escola, com atividades em sala de aula e no campo, e depois voltar para casa por duas semanas para compartilhar o conhecimento com a família e a comunidade.

O fundador da experiência na região, o padre Xavier Nichele e a gestora da unidade, Iracema Lima, junto com estudantes de diferentes gerações da EFA marcaram presença na sessão, formando um entrelaçamento de memórias pessoais e coletivas.  Na avaliação da diretora, a experiência marcou a história da cidade.

“A sessão foi incrível, um sucesso! A expectativa de público foi superada! Muita gente após a exibição veio me parabenizar e agradecer pela experiência. Uma senhora me falou assim: “Geilane, muito obrigada por isso! O filme é lindo e me senti que nem no cinema”. Eu fiquei muito impactada com esta frase e com o retorno, especialmente, das crianças e das pessoas mais idosas.  As apresentações musicais antes da exibição foram muito bacanas. Os artistas me agradeceram pela possibilidade de se apresentarem para aquela multidão. O resultado que fica é a experiência e a gratidão da comunidade com relação ao filme e ao projeto. É um ciclo o processo todo do Revelando os Brasis. Envolvemos a comunidade durante a pré-produção, a produção e retornamos para exibição de um filme feito coletivamente com eles e com a participação de um elenco da região. Tanto no material de arquivo quanto nas imagens feitas durante as filmagens tem moradores de Itatiaia. Muitos alunos que aparecem nestas imagens de arquivo estudaram comigo. O filme é uma demonstração de afeto pela Escola Agrícola e por estas memórias. A experiência de lançar o filme em Itatiaia tem uma importância ainda maior porque muitas outras pessoas que foram alunas e que são alunas da escola se identificam e veem no filme uma realidade local. É a valorização das nossas raízes. É muito importante e gratificante proporcionar isso para Itatiaia e para São José do Jacuípe, principalmente, num momento em que a gente vive uma violência tão grande, pois não se sente seguro para sair à noite. Aí vem o cinema e tira as pessoas de suas casas, mobiliza e as leva até a praça onde têm um encontro e um intercâmbio para contemplar e assistir a um filme que está ali na tela. É uma coisa nova e inovadora! O cinema vem até Itatiaia e as pessoas vão até o cinema! É realmente incrível! Uma emoção muito grande! Agora, os professores querem que eu vá até as escolas para falar com as crianças sobre a experiência de fazer um filme no município. Muito legal este retorno. É um trabalho que vai ficar na comunidade, na escola agrícola, na secretaria de educação, todos vão poder acessar o filme.”

Fotos: Ratão Diniz

 

 
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