EDIÇÃO - Ano VI

A memória vive, em Ponta Grossa, no litoral cearense

Com o vento quebrando no rosto, os pés aquecidos pela areia e o coração repleto de gratidão, o Circuito Nacional de Exibição do Revelando os Brasis VI celebrou os laços, a memória e a convivência comunitária na Praia de Ponta Grossa, no município de Icapuí, no litoral do Ceará. A sessão para estreia do documentário “O Pescador de Memórias”, de Eliabe Crispim, aconteceu bem debaixo de um chão de estrelas, envolto pelo oceano e com a presença de todo o povoado local nesta segunda-feira (10/09).

Ao penetrar nestas terras feitas de mar quente e rochedos avermelhados, onde o turismo sustentável recebe um especial cuidado da comunidade, o caminhão-cinema se aconchegou à paisagem para preparar uma noite de filmes de curta-metragem produzidos por moradores da cidade icapuiense e de outras pequenas cidades brasileiras espalhadas pelos brasis.

O documentário com direção, roteiro e produção de um morador do lugar fala de outro morador local, Josué Pereira, que passou a vida a recolher e guardar peças e objetos escondidos pelos ventos nas dunas até formar um valioso acervo histórico e arqueológico. Um filme sobre memória, resgate e preservação num país ferido pela destruição de parte da história após o incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

A equipe ainda estava tonta de deslumbramento diante da geografia local e da capacidade natural de acolhimento dos moradores quando chegou a noite que reservava um encontro dos habitantes com sua ancestralidade, vezes esquecida por alguns ou até mesmo desconhecida por outros.

Pessoas de perto e de longe foram chegando para conferir o cinema ao ar livre. Veio gente da Praia de Redonda e até de Fortaleza. E sabe quem apareceu para nos dar um abraço?!: a diretora do documentário “Uma Pescadora Rara no Litoral do Ceará”, Sidnéia Luzia da Silva, moradora de Icapuí, selecionada pela primeira edição do Revelando os Brasis. Os moradores tiveram a oportunidade de rever e alguns de ver pela primeira vez o filme feito pela pescadora na Praia de Redonda há quase 14 anos. E a gente pôde matar um pouquinho da saudade da nossa diretora.

Como vem acontecendo nas demais sessões, a plateia vibrou ao se ver na tela e participou ainda mais do momento, comentando filme a filme. O documentário reacendeu a esperança de criação do Museu Comunitário de Ponta Grossa cujo objetivo será abrigar, organizar, proteger e promover o acervo reunido por mais de três décadas pelo pescador.

O secretário municipal de Cultura e Juventude de Icapuí, Manuel Freitas Filho, marcou presença e confirmou que em breve acontecerá a assinatura do termo de cooperação técnica entre a Prefeitura Municipal de Icapuí e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para a construção do museu. Para Eliabe Crispim, a sessão ainda está pulsando no coração como um momento de celebração compartilhada:

“Fiquei muito feliz! Veio todo mundo da comunidade para assistir. Foi muito lindo ver as pessoas se vendo na tela, se reconhecendo, se apropriando da história, se sentindo parte do processo. Isso é muito bom! Estou feliz com o reconhecimento do trabalho realizado. Foi um processo muito lindo desde as capacitações. Recebi altos elogios de turistas e de pessoas da comunidade reconhecendo o esforço e parabenizando pelo trabalho, tanto de resistência e luta de Josué de 34 anos de preservação da memória, como pela sensibilidade que tive ao escrever isso e tornar esta história mais visível para mais gente através do Revelando os Brasis. Pelo trabalho de expandir esta história pra que outras pessoas possam reconhecer e fortalecer a luta de preservação da memória do povo do litoral do Ceará. Outro detalhe importante é perceber como este trabalho em parceria com a Prefeitura de Icapuí também tem fortalecido o processo de encaminhamento e desenvolvimento para construção do museu”.

Josué Pereira, o protagonista desta história, se sentiu valorizado com o filme e contou um pouco sobre como começou o sonho.

“Eu achei excelente o filme! É por amor a esse trabalho nas dunas que aconteceu tudo isso. Quando era molequinho, menino, o povo ía para os terreiros conversar sobre as histórias da Ponta Grossa, os encantos, as lendas. Quando via aquilo, ficava emocionado e medroso. Faltava não chegar em casa com o medo que sentia. Contava as histórias e aquilo ficava na imaginação. Quando via, a coisa já estava pegando n’eu! Eu dizia sempre: qual é a pessoa que vai falar da Ponta Grossa um dia e desbravar a história?! E este homem fui eu. Esta vontade de fazer tudo isso. Pra mim, isso que eu faço é meu DNA, está guardado e estava adormecido anos e mais anos. E o vento cavou. E trouxe e guardei em casa. Faz 34 anos que faço isso. Hoje tenho 4.440 peças catalogadas. Pra mim, é um prazer. Daqui pra frente está guardada a minha memória, a memória de uma comunidade inteira e do meu Brasil.”

Depois da exibição dos curtas-metragens, muitos moradores caminharam até a Barraca Macura para cantar e dançar animados pelo som das meninas do Grupo Arte Brasil. A festa continuou até o meio da madrugada. Uma noite inesquecível no litoral cearense! Obrigada, Icapuí, nosso abraço apertado a todo o povoado da Praia de Ponta Grossa! O Circuito Nacional de Exibição do Revelando os Brasis VI se prepara agora para seguir para Bom Jesus do Tocantins, no Pará. O Revelando os Brasis tem patrocínio da Petrobras e realização do Instituto Marlin Azul.

Fotos: Ratão Diniz

 
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