EDIÇÃO - Ano VI

A experiência do olhar nas pequenas cidades

Aos 18 anos, ele sonhava em estudar cinema. Morava no cariri paraibano, na pequena cidade de Barra de São Miguel, quando inspirado no barbeiro do avô contou a história “A Encomenda do Bicho Medonho”. Selecionado pela segunda edição do Revelando os Brasis, André da Costa Pinto, foi para o Rio de Janeiro, no ano de 2006, junto com outros moradores de pequenas cidades, para estudar durante duas semanas como se faz um filme. Na época, ele cursava jornalismo mas aprendeu mesmo com o projeto a prática do dia a dia de um set de filmagem.

Voltou para o município de origem com conhecimentos novos, disposição e paixão para fazer um filme no lugar onde vivia e compartilhar o que aprendeu com os moradores de Barra de São Miguel. André queria vivenciar um ensinamento aprendido com a avó e apontar a câmera para dentro do quintal de casa. Seu coração estava cheio de gratidão e vontade para despertar o talento e valorizar a autoestima das pessoas do lugarejo.

Onze anos após as oficinas, o menino de Barra de São Miguel não parou de realizar sonhos e ainda despertou o interesse de outras pessoas para o audiovisual. Hoje, ele guarda na bagagem a realização de cinco longas-metragens (Tudo que Deus Criou; O Tempo Feliz que Passou; Antes do Parto; Ratoeira (em pós-produção) e Madame (em pós-produção); dezenas de curtas-metragens; prêmios em festivais regionais e nacionais; a criação e coordenação de um festival de cinema e a condução de cursos de formação para atores e produtores.

Nesta sexta edição, o diretor, roteirista, produtor, preparador de ator, ministrou aula de Direção de Atores e de Mobilização para a nova turma de autores. O cineasta conta um pouco sobre sua trajetória e a vivência de arte e cidadania através do Revelando os Brasis.

 

Qual o significado do Revelando os Brasis na sua vida?

 

André da Costa Pinto – Pra se ter uma ideia, o Revelando os Brasis mudou o plano pedagógico da minha universidade. Eu tinha voltado para a faculdade com o filme “A Encomenda do Bicho Medonho” e, na época, a universidade somente aceitava monografias como Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC).  Eu tinha um filme que não podia ser apresentado como trabalho de conclusão do curso de comunicação. Levei a questão para a reitoria: por que um aluno que fez um filme, que deu certo, que rodou, não pode entregar esta obra junto com o texto como projeto de conclusão de curso, se a faculdade não dá esta estrutura pra ele?

Esta situação gerou uma discussão que mudou o projeto pedagógico da universidade e os alunos puderam, a partir deste debate, apresentar estes trabalhos na faculdade de comunicação e em outros cursos também. O filme produzido no Revelando os Brasis não pôde ser um produto final de curso, mas abriu as portas que geraram a discussão para que outros estudantes pudessem ter esta conquista.

 

Como foi a experiência de participar da segunda edição?

 

André da Costa Pinto – Eu tinha dezoito anos quando fiz o Revelando. Eu pensava em cinema mas estava numa faculdade de comunicação, com habilitação em Jornalismo, com disciplinas mais teóricas de cinema. O Revelando tem um potencial fundamental, pois me colocou dentro do mercado, me deu noções básicas sobre como fazer cinema de forma profissional. Quando fui fazer o curso de formação de atores e produtores, que me gerou muitas conquistas, utilizei todo o material que eu havia aprendido durante o Revelando. Me transformei naquilo que o Revelando me pediu naquele momento: ser um agente multiplicador de cultura. Não ficou somente no revelando. Depois deste filme, veio um processo de formação, veio um festival.

São tantas pessoas que vivem de cinema a partir da oportunidade que eu tive. A minha experiência levou experiência para outras pessoas que hoje estão vivendo de audiovisual e de cinema a partir de uma semente que foi plantada pelo Revelando os Brasis. Nasceu no projeto e virou célula.

O que eu aprendia de cinema na faculdade era completamente teórico, me ensinava com quadro negro e giz. Eu não tinha possibilidade de saber o que é um plano de filmagem, o que é uma decupagem, nem noções básicas de direção. Na faculdade, apenas estava aprendendo crítica cinematográfica e história do cinema. Não estava aprendendo a fazer cinema. Foi esta possibilidade do Revelando que me deu oportunidade de fazer cinema na prática.

E isso gerou várias parcerias. O profissional que fez a minha direção de fotografia é o diretor de fotografia dos meus longas-metragens. Estou trabalhando com Paulo Halm, com Márcia Medeiros, com Beth Formaggini. Esta experiência abriu portas para que eu trabalhasse com as pessoas com as quais estudei durante o Revelando os Brasis.

 

Como estes autores da sexta edição devem aproveitar a experiência do projeto?

 

André da Costa Pinto – Primeiro, ter certeza e orgulho da história que quer contar. O primeiro ponto da minha trajetória foi ter um envolvimento muito afetivo com minha cidade, com as pessoas para os quais eu estava contando uma história. O envolvimento afetivo me dava prazer de querer contar aquela história. E quando eu tinha prazer de contar aquela história, vinha o perfeccionismo: eu queria contar da melhor maneira possível. Então, eu não tinha este tempo de deixar para depois. Eu tinha que aprender naquela hora do curso porque era a minha chance para poder fazer alguma coisa.

Eu tinha a paixão e o orgulho de estar no meu canto, com as pessoas da minha cidade. Minha avó, que era atriz, sempre me dizia: o quintal da sua casa é universal. No meu primeiro curta, eu contei a história do barbeiro do meu avô que era vizinho da minha avó. Este quintal que era universal foi o que me abriu as portas para o mundo, abriu as portas para eu mostrar a minha cidade para o mundo.

Eu acho que esta experiência depende do comprometimento e do envolvimento com aquilo que você quer. E com a vontade de querer aprender. O que eu não sabia, eu perguntava. Tinha certeza do que eu queria fazer. E perguntava até receber a resposta. Eu estava buscando respostas. Se é um espaço de formação, é um espaço para buscar respostas. Eu não podia descobrir dentro do set. O processo deste momento é não querer descobrir as coisas dentro do set porque no set você já vai descobrir muita coisa. Você tem que sair do curso com suas perguntas respondidas. O resto, o set vai te dar.

 

Como foi o trabalho de direção de atores para esta turma?

 

André da Costa Pinto – Todos vão trabalhar com atores inexperientes. Na verdade nem são atores e talvez possa ser que venham a se tornar atores naquele momento por causa deste trabalho. Primeiro, então, é preciso identificar as pessoas que estão aptas para isso. Aptas no sentido de descobrir quem está disponível para aprender? É necessário ter esta troca. Mostrar a fragilidade que você tem neste processo de direção – porque vai ser uma troca com todo mundo – e tentar identificar os agentes que estão prontos para este processo de entrega. É preciso conhecer bem o roteiro, comunicar bem a história que você quer contar e tentar mostrar pra estas pessoas este troço maravilhoso que é a câmera, o enquadramento. Por exemplo, mostrar se o quadro é fechado, se o quadro é aberto, e dar a noção que cada enquadramento tem para comunicar. É preciso passar isso para esta pessoa. A inexperiência pode ser compensada com muita informação.

 

Foto: Ratão Diniz/Instituto Marlin Azul

 
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